A adolescência costuma ser descrita como preparação para o futuro. Essa imagem destaca descobertas, autonomia e possibilidades, mas pode ocultar algo decisivo: crescer também implica perder. O corpo infantil se transforma, antigas referências deixam de responder e a proteção da infância já não pode ser recuperada da mesma maneira.
Essas perdas não acontecem de uma só vez. Elas são elaboradas em movimentos contraditórios. O adolescente pede liberdade e, no instante seguinte, procura amparo. Afasta-se da família e necessita saber que ainda possui um lugar nela. A contradição não é sinal de manipulação. É parte do trabalho psíquico de construir uma nova posição.
Um corpo que se torna estranho
As mudanças corporais chegam antes que exista linguagem suficiente para compreendê-las. O corpo passa a ser observado, comparado e julgado. O olhar dos outros ganha intensidade e pode produzir vergonha, orgulho, desejo ou insegurança. A imagem de si precisa ser reconstruída.
Comentários aparentemente leves sobre aparência podem adquirir enorme peso. Por isso, o adulto precisa resistir à tentação de minimizar. Dizer que é apenas uma fase não ajuda quem ainda não sabe como atravessá-la. Acolher não significa confirmar toda avaliação negativa, mas reconhecer a verdade do sofrimento.

Separar-se sem romper todos os vínculos
Para conquistar certa autonomia, o adolescente precisa questionar os adultos que antes pareciam possuir todas as respostas. A crítica, a oposição e a busca por referências fora da família participam desse processo. Os grupos oferecem linguagem, pertencimento e ensaios de identidade.
Os responsáveis podem viver esse afastamento como rejeição. Quando respondem tentando recuperar controle total, o conflito se intensifica. A tarefa adulta consiste em permanecer disponível sem invadir, sustentar limites sem humilhar e aceitar que educar também envolve perder o lugar idealizado que um dia se ocupou.
Quando o sofrimento pede escuta
Nem toda oscilação de humor indica adoecimento, mas sofrimento persistente não deve ser banalizado. Isolamento intenso, abandono de atividades, alterações importantes no sono, autodepreciação e falas sobre morte exigem atenção. A escuta precisa acontecer sem interrogatório e sem promessa de segredo absoluto diante de risco.
O atendimento clínico oferece um espaço diferente da família e da escola. Nele, o adolescente pode falar sem precisar corresponder imediatamente à expectativa de melhorar, explicar ou tranquilizar os adultos. Essa liberdade favorece a construção de palavras próprias.

Crescer não é tornar-se pronto
A adolescência não termina com uma identidade definitiva. Ela inaugura uma forma mais complexa de lidar com escolhas, limites e desejo. O jovem precisa descobrir que nenhuma decisão elimina todas as dúvidas e que autonomia não significa ausência de dependência.
Elaborar as perdas da infância permite levar adiante aquilo que nela houve de vivo, sem permanecer preso à tentativa de recuperá-la. Crescer pode então deixar de significar abandonar quem se foi e tornar-se a possibilidade de criar novas formas de existir.

